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Assassin’s Creed, açúcar e a escola em que acredito

3 Maio
Assassin's Creed

Esse é o jogo Assassin’s Creed. Eu nem tentei jogar. Sou da época do joystick do Atari…

Por mim, o Loretto não ia ter videogame. Mas meu irmão deu a ele um PS3… (meu irmão também levou o Loretto para comer McDonald’s…, ou seja, temos uma relação bastante conflituosa… love you, brother…). E o Loretto entrou na febre do Assassin’s Creed, um jogo que eu nunca vou entender bem (pois sou da época do River Raid…), mas que tem, ao que parece, piratas circulando pelas ilhas do Caribe na época da colonização espanhola, roubando, lutando, afundando navios…

Hoje, no entanto, em pleno domingão, eu tenho que me render ao sucesso do mundo tecnológico. Vejo Loretto, para lá e para cá, às voltas com os hábitos das colônias caribenhas. Ele nem relou no controle do pS3, mas passou a manhã perguntando sobre a importância do açúcar naquela época. Momento mágico de explicar – a quem buscou o conhecimento de forma ativa – sobre capitanias hereditárias, governança colonial, construção de fortes, tratado de Tordesilhas. E –  glória, glória absoluta! – o Loretto leu um capítulo inteiro do seu livro de história (o livro que ele ainda nem tinha aberto até ontem), para entender mais sobre a colonização e as conquistas entre 1500 e 1600…

Loretto lendo o capítulo sobre colonização da América. Por vontade própria...

Loretto lendo o capítulo sobre colonização da América. Por vontade própria…

Descubro que, na escola (EMEF Des. Amorim Lima), a tutora percebeu o interesse dos meninos pelo jogo e deu a alguns deles um roteiro de pesquisa baseado na trama do Assassin’s Creed. Agora, cabe ao Loretto e aos dois colegas que trabalham com ele nessa pesquisa, desvendar o que estava por trás de todas aquelas trocas comerciais que se desenvolvem no game. Lembrei-me de como foi que aprendi sobre as capitanias, lembrei-me de como decorei data e nomes. Lembrei-me de como foi inútil todos esse meu conhecimento naquela época. Loretto, ao contrário, tem aprendido as coisas de um jeito que não vai mais esquecer. De um jeito muito mais lento também, tenho que admitir. Mas é inegável que, para um menino de quase quase nove anos, essa forma de aprender é muito mais legal.

Esse foi o roteiro que a tutora do Loretto inventou. Conhecimento a partir do interesse dos meninos.

Esse foi o roteiro que a tutora do Loretto inventou. Conhecimento a partir do interesse dos meninos.

Minha aula sobre época da colonização. Minhas caravelas, minhas capitanias hereditárias...

Minha aula sobre época da colonização. Minhas caravelas, minhas capitanias hereditárias…

Ah…sobre o Mc Donald’s…ufa, nessa meu irmão perdeu. Loretto achou tudo sem gosto na lanchonete do SuperSizeMe.

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Como eu me sinto quando…corrijo as lições do Loretto

10 Jun
Surpresa da vida é o que eu tenho todas as vezes em que corrijo as lições do Loretto

Surpresa da vida é o que eu tenho todas as vezes em que corrijo as lições do Loretto

 

Todos os dias eu olho as lições do Loretto. Bom, na verdade, nem todos os dias ele faz lição. Às vezes, eu pergunto: “Loretto, o que você fez hoje?”. E ele responde: “Eu fiquei cavando o parque” (ele tem certeza absoluta de que há tesouros escondidos no terreno da escola) ou “Eu desenhei…” ou “Eu fiquei nas árvores”. Enfim, já entendi que ele não tem o perfil CDF da mãe e estou digerindo isso. Outro dia, passei para ele um problema de matemática. Desses em que alguém ganha alguma coisa, depois perde outra e a criança tem que descobrir com quantas coisas o infeliz personagem ficou no final. Ele se embananou todo. Após dez minutos, eu perguntei: “Mas a que solução você quer chegar?”. E ele me olhou e respondeu: “Eu não quero chegar a solução nenhuma…quem quer é você!”. Tóim!

Crianças são práticas. Mas o melhor exemplo de praticidade, vi na lição de ontem. Um lindo conto indiano, com uma princesa (a Fátima!) que, durante uma terrível chuva, sofria um naufrágio. Resgatada por um costureiro, aprendera a tecer. Depois, na tentativa de voltar ao seu reino, pegava um novo navio. Nuvens negras se aproximaram, chuva torrencial caiu do céu, e ela naufragou novamente. Dessa vez, foi resgatada por piratas. E vendida a um rei. Um rei que precisava de alguém que tecesse uma tenda. Ela, que havia aprendido a tecer, fez a tenda, agradou o rei, casou-se com ele e viveu feliz para sempre (com seu status de família real resgatado!). O capítulo inteiro (do livro de português, da Coleção Buriti, ed. Moderna) era construído no sentido de mostrar para as crianças que, por mais desventuras que alguém encare na sua vida, sempre há o que aprender e todo aprendizado é útil. Loretto, leu, desenhou, procurou palavras no dicionário, enfim, fez tudo que o livro pedia. No final, a pergunta: “Que exemplo esse conto pode dar para o leitor?”. A resposta do Loretto foi surpreendente, foi mágica, foi tudo que eu precisava ler naquele momento, foi um exemplo claro da sensibilidade do cromossomo Y herdado do Maurício:

“NUNCA NAVEGUE NA CHUVA!”

É isso! A gente vive investigando problemas de matemática, cheios de ganhos e perdas, e a criança fala: isso é tudo invenção sua… A gente vive caçando lições de moral, um sentido maior para o mundo, para a vida. E a criança fala:  o único sentido é viver. Não se esqueça: o único sentido é viver!

Minha mãe concordou plenamente com o Loretto e acrescentou que voar em dia de chuva também não é recomendável

Minha mãe concordou plenamente com o Loretto e acrescentou que voar em dia de chuva também não é recomendável

Depois de muitas peripécias, a princesa encontra sua felicidade. Mas, para o Loretto, esse negócio de naufragar duas vezes não teve muita graça, não.

Depois de muitas peripécias, a princesa encontra sua felicidade. Mas, para o Loretto, esse negócio de naufragar duas vezes não teve muita graça, não.