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Loretto faz uma macumba e tem uma grande revelação

2 Dez
Chegar, à noite, e ser recepcionado com essa bandeja... Isso é o dia-a-dia aqui em casa.

Chegar, à noite, e ser recepcionado com essa bandeja… Isso é o convencional aqui em casa.

Loretto fez uma instalação e performance com um crânio de carneiro. Chegamos à noite e lá estava Loretto no nosso quarto, com um crânio sobre uma bandeja redonda. Sobre o crânio, uma vela. E ao redor, uns dentes arrancados de um maxilar de porco do mato e umas pedras. O quarto estava com a luz apagada. A vela estava acesa. E o Loretto estava segurando uma foice com cara de possuído. Aqui em casa é assim! Vivemos em perfeita harmonia, em um ambiente saudável e cheio de boas surpresas…

Pais normais teriam levado o filho ao exorcista.

Depois de muita conversa sobre o mundo da evocação dos espíritos e o mundo das macumbas, depois de muita conversa sobre a energia das pedras e sobre o cheiro de vela, Loretto contou qual foi sua grande revelação daquele dia. Loretto mostrou como o mundo do esoterismo é muito mais complexo do que imaginam os mortais sem conhecimento odontológico-veterinário. Palavras dele: “Manooo, arrancar dente permanente dá muito trabalho! Demorei duas horas com o alicate do papai para conseguir arrancar quatro dentes da mandíbula do porco do mato…!”

Vamos pensar pelo lado positivo: quando um hiperativo fica duas horas parado numa tarefa, estamos fazendo progresso. Eu sei…ele bem que poderia estar estudando, ou decorando a tabuada, ou ainda…treinando conta de dividir com dois números na chave…mas, enfim…pelo andar da carruagem, se um dia eu chegar em casa e ele estiver estudando desse jeito, aí, sim, é o caso de exorcizar…

Parece uma macumba, mas, na verdade, é...apenas uma experiência, com vela...

Parece uma macumba, mas, na verdade, é…apenas uma experiência, com vela…

Dentes de porco do mato. Esses daí foram arrancados do maxiliar inferior com um alicate. Segundo o Loretto, deu trabalho!

Dentes de porco do mato. Esses daí foram arrancados de um maxilar inferior com alicate. Segundo o Loretto, deu trabalho!

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Lego para Loretto, quebra-cabeça para Arrigo, hiperatividade para todos

31 Ago

 

Templo de Lego. O Loretto ficou horas até achar uma arquitetura que fosse condizente com a história que inventou.

Templo de Lego. O Loretto ficou horas até achar uma arquitetura que fosse condizente com a história que inventou.

O Loretto é como todo menino. Corre, pula, grita, reclama, perde lápis, amassa caderno. E, como quase todo menino, já foi chamado de hiperativo algumas dezenas de vezes. Remédio? Sim, já sugeriram. Por sorte, ele tem uma pediatra tão maluca quanto nós – e ela acredita que ele é, simplesmente, criança – e como tal pode e deve brincar, viver. E ele vive como uma criança de antigamente – só pensa em subir em árvore, não tem video-game (recentemente, ganhou um IPAD usado e entrou na febre do Minecraft…durou menos de um mês, até porque o IPAD quebrou. Agora, ele “joga” Minecraft lendo um livro da Abril sobre o assunto), está sempre com as roupas sujas e rasgadas. E não para. Nunca. Almoça e faz lição de pé…

No começo desse semestre, ele começou a inventar e desenhar uns mapas para expedições misteriosas. Daí tive uma ideia genial de comprar um quebra-cabeça com mapa. Claro! Como nunca tinha pensado nisso? Para montar quebra-cabeça é preciso ficar parado! Comprei um de 100 peças. Mapa do Brasil, bonitinho, com parte da América do Sul. Mas…que decepção! Ele ficou quatro dias enrolando, jogando peças para baixo da mesa. E não conseguiu montar. Certa manhã, o Arrigo pegou o quebra-cabeça e…montou em meia hora. O Arrigo tem quase quatro anos. O Loretto tem oito…

Confesso que pensei: “Talvez seja mesmo o caso de dar um remedinho para o Loretto, né?…”. E, enquanto refletia, o Arrigo começou a pedir mais e mais e mais quebra-cabeças para montar. 100 peças, 150 peças, 200 peças, 250 peças… Estamos agora com um aqui de 500 peças…cheio de peixes…uma desgraça para montar…mas ele não desiste. Arrigo é assim: metódico, determinado. Mas, ei, espera! Arrigo também já foi “rotulado” de hiperativo. Tem gente até que acha que ele é pior do que o Loretto! Ele também corre o dia todo, também pula, também grita, também esperneia, também não para.

Mas Arrigo fica parado quando está montando quebra-cabeça.

Assim como o Loretto fica parado para desenhar, pintar e…montar Lego!

Ontem, em um churrasco com amigos queridos, ele ficou cerca de duas horas montando Lego. Enquanto as outras crianças se revezavam em várias brincadeiras, ele montou um templo e me contou a história do templo. E, então, eu entendi: não há nada para se “inventar” num quebra-cabeça, por isso Loretto não gosta de montá-los. No carro, ele confirmou o que eu imaginei. Ele me disse que acha estranho querer montar um desenho que você já sabe qual vai ser… O desenho do quebra-cabeça já está lá, já existe. Num Lego, quem monta inventa.

E, assim, estou cá a pensar em tudo que já ouvi… A mesma galera que me sugere remédios e escolas tradicionais para o Loretto tem o seguinte argumento: “Ele vai sofrer quando tiver que fazer prova…”. E eu te digo: talvez EU sofra. Ele nunca. Loretto faz Kumon e sabe que nunca vai ganhar medalha de matemática. E não está nem aí. Continua indo para lá, felizão: o negócio dele é chegar, fazer a lição rapidinho e ficar contando histórias para as monitoras. “Neste final de semana, fui para a África do Sul”, inventa. Ele inventa coisas novas o tempo todo. Eu não acho que ele vai sofrer. Mas eu acho que ele vai incomodar muita gente. Porque a sociedade fica possessa com crianças que são crianças – daí o sucesso dos remédios – e com os adultos que são adultos – daí o sucesso das plásticas e brinquedos caros, como os carros de marca. Abaixo, para você se inspirar, a música preferida do Loretto. Sim, para piorar o cara é fascinado pelo Raul Seixas. Estou ferrada! Vou ter que tomar muitos antidepressivos…

 

Por dentro do Templo de Lego criado por Loretto

Por dentro do Templo de Lego criado por Loretto

Quebra-cabeça da epifania. Loretto não conseguiu montar. Arrigo montou em meia hora...

Quebra-cabeça da epifania. Loretto não conseguiu montar. Arrigo montou em meia hora…

 

Polêmica: armas de brinquedo, crianças, homens e mulheres

5 Dez

garruchinha

Cena 1:

Eu, desde que nasci até ontem, dizia: “Nunca, jamais vou comprar uma arma de brinquedo para o meu filho. Acho horrível estimular a violência com armas de brinquedo. Existem tantas coisas legais no mundo para se brincar. Nunca. Nunca. Nunca”.

Cena 2:

Quando o Loretto tinha 3 anos, dei uma letra L de EVA para ele. E disse: “Olha, Loretto, um L! É a letra do seu nome”. Ele empunhou o L, mirou um alvo imaginário e atirou… “Pá, pá, pá…”. Fiquei horrorizada. Como assim? A gente não assiste Datena. A gente não vê nada de violência. Como ele pega um L e transforma em um revólver? Como?!

Cena 3:

Loretto faz mil e um bonecos e invenções com fita crepe e tudo que é tipo de cacareco. Uma das suas criações preferidas é a garruchinha da foto abaixo (ela já está até surrada…de tanto uso).

arminha

Cena 4:

Loretto ganhou mês passado cinco Nerfs do meu sobrinho, o Enzo (que já está com 13 anos e passou dessa fase de revólveres e metralhadoras). Meu pai conta para o Loretto que quando era pequeno brincava com espingarda de chumbinho. O Maurício diz que também tinha uma espingarda de chumbinho (e que, certa vez, atirou no pé do irmão mais novo… o tio Nim). Eu penso: “Que horror!”.

Cena 5:

Em uma conversa com os coleguinhas do Loretto que fazem Sesc Curumim, descubro que muitos deles pediram Nerfs no Natal… Pergunto: “Por quê?”. E eles respondem: “Porque é muito legal…”. E eu penso que o mundo está perdido.

Cena 6:

Minha mãe se mostra preocupada. Ela, que assistiu muita Xênia da década de oitenta, gosta de explicar as coisas com a psicologia da TV Mulher: “Será que ele não está passando por alguma dificuldade e está compensando nas armas?”. Eu me preocupo: “Será?”. Meu pai, do outro lado da mesa, responde: “Que nada…” e emenda: “Loretto, com um tiro de chumbinho, eu matava umas quatro pombas…”.

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Daí que, nos últimos dias, essas observações me fizeram entender uma coisa: por mais que eu tenha sido uma menina de rua, quase um moleque, eu sou mulher. E mulheres têm uma visão fragmentada do mundo dos homens. Entendi que há uma fase em que muitos dos meninos gostam de armas (não todos, mas muitos deles). Eles não vão ser assassinos no futuro. Não vão entrar em um cinema e sair matando todo mundo porque tiveram uma Nerf quando eram pequenos. Eles gostam de armas, de espadas e de facas… É deles.  O Enzo, por exemplo, cresceu e doou as Nerfs para o primo. O Maurício e meu pai tinham espingardas de chumbinho e não se tornaram assassinos. Pronto. É isso. Eu ainda acho que há coisas mais legais para brincar. Mas entendo a questão de outro modo agora.

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Cena 7:

Passeei ontem com o Loretto. Fomos ao Museu Catavento, depois resolvemos ir à pé até a Liberdade, comer comida japonesa. Passamos pela 25 de março. O Loretto viu uma garrucha de pirata. Linda. De plástico, baratinha e linda.

Comprei para ele.

Cena 8:

No metrô:
– as mulheres olham com olhares reprovadores para mim e para o Loretto, que atira com sua garrucha em corsários invisíveis.
– os homens, todos e de qualquer idade, olham para o Loretto com um sorriso de canto de boca, quase uma vontade de pedir “me empresta essa garrucha um pouquinho”…

jack sparow

Fim.

Progressos na modelagem em argila

13 Ago

aguia argila loretto

Loretto me chamou empolgado para mostrar as novas criações feitas no quintal de vó Isaura. É sempre lá que ele tem a chance de criar com a argila – o material deixa sujeira para todo lado. Nas esculturas, percebo que o Loretto persegue a perfeição, tenta a melhor proporção possível. Não é assim nos desenhos (em que ele busca algum contato com a realidade, mas se dá o direito de alguma invenção) e muito menos na pintura (onde, até hoje, ele quer apenas o abstrato).

Fiquei impressionada com a Águia – muito expressiva. Ele fez de memória e isso me faz pensar que ele tem uma memória visual muito boa. O dinossauro é muito parecido com qualquer outra dinossauro, mas tem os dentes de palito e uma expressão assustadoras. O que achei bacana foi ele ter me contado que fez uma armadura de madeira por baixo para a sustentação do pescoço e do rabo (que poderiam cair se fossem apenas argila). Achei engenhoso.

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dinossauro argila loretto

dinossauro argila loretto 2

O Pensador, de Rodin, no nosso quintal

24 Mar

IMG_3755Quando você tem um tanto de argila ao alcance das mãos, é natural olhar para ela e pensar: “O que faço? O que moldo?”. Loretto foi pensando, pensando enquanto moldava. E disse que, de tanto pensar, fez O Pensador. Loretto pensa com as mãos, assim como o Pensador de Rodin parece pensar com todo o corpo. Gostei tanto da obra que fiquei brincando de fotografar…cabe a você pensar agora de que foto gostou mais.

Pensador de Rodin by Loretto

Aqui, uma versão sem flash, com o ateliê…lá no fundo do quintal da vó Isaura e vô Osvaldo

Pensador de Rodin Manequim

Uma versão com os moldes da revista MANEQUIM. Esses risquisnhos sempre me fizeram pensar “como alguém costura seguindo isso?”

Pensador de Rodin

Este é o verdadeiro Pensador. Quem o apresentou ao Loretto? Não sei. Mas é uma referência clássica, aparece em filmes, desenhos animados, livros…

Hervé Fischer: de graça até carimbo na testa

16 Mar

IMG_3749Loretto olhou carimbo por carimbo, escolheu o que dizia ORIGINAL e – ploft – carimbou a testa. Um grupo de adolescentes que estava na exposição ficou olhando para essa atitude bem doida, como se o Loretto fosse uma própria extensão das obras de Hervé Fischer. Não sei se o Hervé Fischer, filósofo, artista e contestador da arte, teria pensado neste uso quando criou o livro Arte e Comunicação Marginal. Os carimbos fazem parte de uma encomenda para vários artistas, propondo uma nova perspectiva coletiva, participativa, digamos “reproduzível” da arte. E estavam todos em um mesa, no MAC da USP, na exposição que vai até 28 de julho de 2013. Todo mundo pode carimbar a mesa. E o Loretto carimbou o corpo todo: começou pela testa e foi até o pé.

O mais significativo para mim não foi ter o menino todo carimbado, como um tatuado mirim. Isso era até previsível. O legal, de verdade, foi uma das adolescentes ter feito a mesma coisa na sequência. Vendo o Loretto carimbado na testa, ela se empolgou, pegou o mesmo carimbo e – ploft – fez igual. Já não era original, mas, ao mesmo tempo, foi.

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A simpática Natália que estava no MAC com os amigos justamente pesquisando o que é a arte e para que ela serve

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Um registro do Loretto para e sobre a obra de Hervé Fischer

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Arte? Loretto já carrega o questionamento na pele

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A arte é urgente. E, ao mesmo tempo, não tem pressa.

Obra do Loretto no MuBE! De 08 a 30 de dezembro – Pandora’s Box

22 Nov

“Pergunta para eles se a minha escultura pode ter música”. Essa era a questão do Loretto para os organizadores do Pandora’s Box, terceira edição de Mail Art do MuBE. Mail Art funciona assim: você se inscreve e recebe pelo correio algum material, que deve transformar em obra de arte e enviar de volta, também pelo correio. Eu mostrei ao Loretto que as inscrições estavam abertas e ele quis participar. Viu as peças que seriam enviadas e já decidiu o que ia fazer, como ia fazer e também o que ia agregar. A música foi um dos itens. Abaixo, registrei o processo todo.  O vídeo tem 2 minutinhos. Se quiser ver a interação do Loretto já com a obra pronta, pode adiantar para o minuto 1:23.

Você, que acompanha o Loretto e suas peripécias por aqui, é um super convidado para a exposição. Gente do mundo todo participa. E, bom, o MuBE é sempre um lugar muito gostoso de se visitar.

MuBE – Museu Brasileiro da Escultura
Av. Europa, 218 – São Paulo – Brasil
11 2594-2601 –mube@mube.art.br
Terça a domingo
das 10:00 as 19:00 hrs

Ah! Essa obra pede agradecimentos:
– ao MuBE, pela organização do democrático projeto Pandora’s Box
– ao capoeirista Rodrigo Pança, pela doação das peças de capoeira
– ao Richard, da Santa Ifigênia, pelo desconto no MP3
– ao Rogério, do supermercado Leandro’s, pela caixa grande doada para o envio
– ao Leandro, da agência Vila Sônia do Correio, pela ajuda na embalagem