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Uma rua em San Telmo e um papo de artistas

3 Maio

 

Desenho do artista Miguel Angel Biazzi, autografado para o Loretto. "con cariño".

Desenho do artista Miguel Angel Biazzi, autografado para o Loretto. “con cariño”.

Era um dia de muito calor em Buenos Aires. Muito calor mesmo. Muito! Pegamos um ônibus com os meninos e descemos sem planos em San Telmo. Já era tarde, queríamos comer alguma coisa. Então, entramos na rua Defensa – pois, dali, nosso plano era seguir à pé até a Casa Rosada. Numa das calçadas, Loretto estancou na frente de uma vitrine.

Era um ateliê com obras que hipnotizaram o Loretto. Quadros que misturavam tintas e garfos, esculturas com parafusos, sementes, folhas… A porta estava fechada e, para entrar, tinha que tocar a campainha. Eu pensei: ” Ichi, estou com fome, se a gente entrar, vai ter que comprar alguma coisa, vai sair tarde, vou ter que conversar, o Arrigo vai catar tudo…”, mas antes que eu desse o comando de bater em retirada, o Loretto já tinha tocado a campainha e já estava sendo atendido por uma senhora. O artista estava lá dentro. E era um senhor extremamente simpático.

Miguel Angel Biazzi e Loretto trocaram frases em portunhol. Loretto queria saber de onde ele tirava aquelas pedras, queria saber como ele grudava os parafusos, queria saber se ele também tinha obras feitas de osso. Queria saber coisas que eu, em espanhol, não conseguia traduzir, mas que o sr. Biazzi entendia. Há uma linguagem entre as pessoas que se deixam tocar pela arte (assim como há uma linguagem entre as pessoas que gostam de vinho – Maurício que o diga – ou entre as pessoas que gostam de literatura – a única que entendo… e por aí vai…).

Sr. Biazzi escolheu um de seus desenhos, assinou e deu para o Loretto. Deu-lhe também uma pedra negra. E disse que, para dar sorte, basta soprar nela.

Gostei de Buenos Aires. Mas, agora, quase seis meses depois da viagem, o ateliê cheio de peças do Sr. Biazzi é a lembrança que persiste com mais contornos. Assim, claro, como o calor daquele dia.

Segundo o sr. Biazzi, para ter sorte, basta soprar essa pedra

Segundo o sr. Biazzi, para ter sorte, basta soprar essa pedra

Sr. Biazzi, na mesa em que bateu papo com o Loretto

Sr. Biazzi, na mesa em que bateu papo com o Loretto


Um pouco mais da obra de Miguel Angel Biazzi

Um pouco mais da obra de Miguel Angel Biazzi

No final da conversa, ele se despediu de Loretto com um até breve

No final da conversa, ele se despediu de Loretto com um até breve

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Os escaravelhos do diabo

9 Dez
Os três besouros emoldurados. Um veio de Caraguatatuba, o outro da Argentina e o terceiro de Centenário do Sul

Os três besouros emoldurados. Um veio da Argentina, o outro de Centenário do Sul e o terceiro de Caraguatatuba

Loretto tem uma coleção de besouros emoldurados (foto acima). Talvez seja por isso que ele tenha se impressionado tanto com o livro O escaravelho do diabo, que acabamos de ler juntos. Eu tive que ler umas 20 páginas por dia do livro. E ele passava o tempo falando sobre a história para os amigos e esperando a hora de continuarmos a leitura. A partir de agora, se você é ruivo (como a Nádia Simonelli ou como a Luciana Andrade, nossas amigas), saiba: Loretto vai te olhar com olhos de…escaravelho.

Besouros é uma das suas paixões, junto com insetos de maneira geral. Quando descobriu (lá no Museu Planeta Inseto) que mesmo que ele vivesse 100 anos e visse um novo besouro a cada dia, não teria condições de ver todos, ficou maravilhado. Na coleção abaixo, vê-se três exemplares. Eu não sei os nomes. Ele sabe. Mas sei de onde vieram. O primeiro foi presente da América, manicure gente boa da Abril, e veio lá da Argentina (perto das cataratas do Iguaçu). O segundo ele encontrou no Paraná, Centenário do Sul. E o terceiro foi presente do tio Marcelo e veio lá de Caraguatatuba. Havia um outro, que veio de Sertãozinho e também foi emoldurado. Mas – e aqui vai um ensinamento – como nós não o havíamos deixado no álcool antes de emoldurá-lo, ele criou larvinhas…que se espalharam pelo fundo do quadro (e o Loretto tirou a moldura e jogou tudo fora…). Portanto, se pegar um besouro para dar ao Loretto, deixe-o no álcool…

Abaixo você vê também o desenho de besouro que o Loretto fez para a América em agradecimento ao escaravelho argentino.  

Besouro desenhado em troca de um besouro de verdade. De Loretto para América.

Besouro desenhado em troca de um besouro de verdade. De Loretto para América.

PS.: Estamos num momento Coleção Vagalume. Leia, se tiver tempo, o texto que fiz sobre O caso da borboleta Atíria no Blog Te Indico um Livro.

escaravelho do diabo

Esse é o livro que minha mãe comprou em 1983 para o meu irmão Marcelo ler. A capa, depois, mudou (tiraram o moço com revólver…porque não era politicamente correto.. Em tempo, se tiver tempo, leia o meu post sobre…as armas e as crianças).

 

Polêmica: armas de brinquedo, crianças, homens e mulheres

5 Dez

garruchinha

Cena 1:

Eu, desde que nasci até ontem, dizia: “Nunca, jamais vou comprar uma arma de brinquedo para o meu filho. Acho horrível estimular a violência com armas de brinquedo. Existem tantas coisas legais no mundo para se brincar. Nunca. Nunca. Nunca”.

Cena 2:

Quando o Loretto tinha 3 anos, dei uma letra L de EVA para ele. E disse: “Olha, Loretto, um L! É a letra do seu nome”. Ele empunhou o L, mirou um alvo imaginário e atirou… “Pá, pá, pá…”. Fiquei horrorizada. Como assim? A gente não assiste Datena. A gente não vê nada de violência. Como ele pega um L e transforma em um revólver? Como?!

Cena 3:

Loretto faz mil e um bonecos e invenções com fita crepe e tudo que é tipo de cacareco. Uma das suas criações preferidas é a garruchinha da foto abaixo (ela já está até surrada…de tanto uso).

arminha

Cena 4:

Loretto ganhou mês passado cinco Nerfs do meu sobrinho, o Enzo (que já está com 13 anos e passou dessa fase de revólveres e metralhadoras). Meu pai conta para o Loretto que quando era pequeno brincava com espingarda de chumbinho. O Maurício diz que também tinha uma espingarda de chumbinho (e que, certa vez, atirou no pé do irmão mais novo… o tio Nim). Eu penso: “Que horror!”.

Cena 5:

Em uma conversa com os coleguinhas do Loretto que fazem Sesc Curumim, descubro que muitos deles pediram Nerfs no Natal… Pergunto: “Por quê?”. E eles respondem: “Porque é muito legal…”. E eu penso que o mundo está perdido.

Cena 6:

Minha mãe se mostra preocupada. Ela, que assistiu muita Xênia da década de oitenta, gosta de explicar as coisas com a psicologia da TV Mulher: “Será que ele não está passando por alguma dificuldade e está compensando nas armas?”. Eu me preocupo: “Será?”. Meu pai, do outro lado da mesa, responde: “Que nada…” e emenda: “Loretto, com um tiro de chumbinho, eu matava umas quatro pombas…”.

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Daí que, nos últimos dias, essas observações me fizeram entender uma coisa: por mais que eu tenha sido uma menina de rua, quase um moleque, eu sou mulher. E mulheres têm uma visão fragmentada do mundo dos homens. Entendi que há uma fase em que muitos dos meninos gostam de armas (não todos, mas muitos deles). Eles não vão ser assassinos no futuro. Não vão entrar em um cinema e sair matando todo mundo porque tiveram uma Nerf quando eram pequenos. Eles gostam de armas, de espadas e de facas… É deles.  O Enzo, por exemplo, cresceu e doou as Nerfs para o primo. O Maurício e meu pai tinham espingardas de chumbinho e não se tornaram assassinos. Pronto. É isso. Eu ainda acho que há coisas mais legais para brincar. Mas entendo a questão de outro modo agora.

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Cena 7:

Passeei ontem com o Loretto. Fomos ao Museu Catavento, depois resolvemos ir à pé até a Liberdade, comer comida japonesa. Passamos pela 25 de março. O Loretto viu uma garrucha de pirata. Linda. De plástico, baratinha e linda.

Comprei para ele.

Cena 8:

No metrô:
– as mulheres olham com olhares reprovadores para mim e para o Loretto, que atira com sua garrucha em corsários invisíveis.
– os homens, todos e de qualquer idade, olham para o Loretto com um sorriso de canto de boca, quase uma vontade de pedir “me empresta essa garrucha um pouquinho”…

jack sparow

Fim.

Desenhos de memória

4 Dez

Esqueleto de gorila desenho de memoria

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que ouvi a expressão desenho de memória. Foi o Eduardinho, meu amigo desde 1991, que me falou. Ele ia prestar arquitetura e essa era uma das habilidades exigidas: fazer bons desenhos de memória. Bons desenhos, no caso, significavam desenhos com proporção e detalhes impecáveis. E eu pensei: “puxa…que difícil…”. Eu até que sei desenhar. Me viro bem no Imagem e Ação. Mas meu mundo é o das letras e, no universo dos desenhos, sei traçar os conceitos. Nunca os detalhes.

Daí, entro no quarto do Loretto e lá está ele sentado no chão desenhando no verso de um calendário velho. Ele fazia um esqueleto de gorila. Eu perguntei de onde ele estava copiando. E ele respondeu que estava copiando da sua memória. Está bem difícil de ele guardar de memória que 8 + 7 é 15 (o Kumon exige esse tipo de memorização), mas ele pode memorizar exatamente quantos ossos tem a perna de um leopardo.

Loretto tem me feito pensar muito nas questões de como as habilidades aparecem e como se desenvolvem. Também tem me feito questionar as minhas exigências e expectativas de mãe (mãe que foi CDF na escola e criada no sistema educacional tradicional). Estou questionando o tempo que ele deve dedicar aos “estudos”, por exemplo. Pensemos juntos: se o que ele faz de melhor e de mais interessante é justamente o que ele faz no tempo ocioso, será que eu tenho o direito de enfiar atividades e mil cursos na vida dele e acabar com essas preciosas horas? Felizmente, ele estuda em uma escola em que não há provas. Isso já o tira da obrigação e do estresse das inúteis semanas de prova (que só provariam sua capacidade de decorar…eu, que fui e sou absolutamente estudiosa, sei que as provas – ao menos até o final do ensino fundamental – são uma grande besteira). Mas eu tinha planos (talvez piano, talvez judô, talvez inglês, talvez pintura…) e tinha ideias de roteiros de pesquisas para fazermos juntos no ano que vem… O esqueleto do gorila me faz pensar que o único plano é deixar o Loretto tranquilo para fazer algo que já é dele: brincar, observar, criar e se expressar – como convém a um menino da sua idade.

O conto do caçador

1 Jun

História do Caçador, de Loretto Carini Casaroti

Capítulo I
Um caçador foi para a mata e viu uma onça pintada. Atirou na onça. O caçador fez um lindo casaco e os urubus comeram a carne.

Capítulo II
Quando viu outra onça, tentou matar. Mas ele esqueceu a arma. E a onça o comeu.

Fim

caçador mata onça loretto

conto da onca loretto

Se a mãe do Loretto fosse boliviana

2 Out

Depois da Festa da Cultura do Amorim Lima, cujo tema foi América Latina, Loretto me vem com essa… Sim, ele ficou impressionado com o Salar (imenso deserto de sal montado na escola) e, sim, ele já nutre paixão antiga pela Bolívia porque a Camila, sua dentista e também a amiga que o traz da escola todos os dias, é boliviana. Além disso, neste ano, ele se encantou com a Marjolie – colega de classe boliviana. Com tudo isso, ele resolveu ter uma mãe boliviana. E essa mãe sou eu, com chapéu e trança. E um celular com antena, meio paraguaio… De tudo, de tudo, o que me preocupou foi ele ter me desenhado com o celular (sinal de que estou usando demais o aparelho). Mas a minha versão boliviana é bem simpática – e tem, estranhamente, olhos enormes…

Uma coruja com a mão no bolso

18 Set

Coruja camuflada de gente, com mão no bolso, segundo o Loretto

O Loretto adora a National Geographics. ADORA! Pede todos os meses para eu comprar e, de presente de Natal, quer a assinatura… E dia desses a Gabi Yamaguchi me mandou o link incrível de um vídeo embedado em uma matéria da National Geographics: é uma coruja que se camufla de dois jeitos bem legais para enganar os adversários. Loretto gostou, quis ver e rever. E desenhou essa coruja que está com a mão no bolso. Ela está camuflada de gente. Parece até que usa gravata e paletó. Assim, toda elegante, olhando meio de lado, passaria incólume na cidade.