Polêmica: armas de brinquedo, crianças, homens e mulheres

5 Dez

garruchinha

Cena 1:

Eu, desde que nasci até ontem, dizia: “Nunca, jamais vou comprar uma arma de brinquedo para o meu filho. Acho horrível estimular a violência com armas de brinquedo. Existem tantas coisas legais no mundo para se brincar. Nunca. Nunca. Nunca”.

Cena 2:

Quando o Loretto tinha 3 anos, dei uma letra L de EVA para ele. E disse: “Olha, Loretto, um L! É a letra do seu nome”. Ele empunhou o L, mirou um alvo imaginário e atirou… “Pá, pá, pá…”. Fiquei horrorizada. Como assim? A gente não assiste Datena. A gente não vê nada de violência. Como ele pega um L e transforma em um revólver? Como?!

Cena 3:

Loretto faz mil e um bonecos e invenções com fita crepe e tudo que é tipo de cacareco. Uma das suas criações preferidas é a garruchinha da foto abaixo (ela já está até surrada…de tanto uso).

arminha

Cena 4:

Loretto ganhou mês passado cinco Nerfs do meu sobrinho, o Enzo (que já está com 13 anos e passou dessa fase de revólveres e metralhadoras). Meu pai conta para o Loretto que quando era pequeno brincava com espingarda de chumbinho. O Maurício diz que também tinha uma espingarda de chumbinho (e que, certa vez, atirou no pé do irmão mais novo… o tio Nim). Eu penso: “Que horror!”.

Cena 5:

Em uma conversa com os coleguinhas do Loretto que fazem Sesc Curumim, descubro que muitos deles pediram Nerfs no Natal… Pergunto: “Por quê?”. E eles respondem: “Porque é muito legal…”. E eu penso que o mundo está perdido.

Cena 6:

Minha mãe se mostra preocupada. Ela, que assistiu muita Xênia da década de oitenta, gosta de explicar as coisas com a psicologia da TV Mulher: “Será que ele não está passando por alguma dificuldade e está compensando nas armas?”. Eu me preocupo: “Será?”. Meu pai, do outro lado da mesa, responde: “Que nada…” e emenda: “Loretto, com um tiro de chumbinho, eu matava umas quatro pombas…”.

—————-

Daí que, nos últimos dias, essas observações me fizeram entender uma coisa: por mais que eu tenha sido uma menina de rua, quase um moleque, eu sou mulher. E mulheres têm uma visão fragmentada do mundo dos homens. Entendi que há uma fase em que muitos dos meninos gostam de armas (não todos, mas muitos deles). Eles não vão ser assassinos no futuro. Não vão entrar em um cinema e sair matando todo mundo porque tiveram uma Nerf quando eram pequenos. Eles gostam de armas, de espadas e de facas… É deles.  O Enzo, por exemplo, cresceu e doou as Nerfs para o primo. O Maurício e meu pai tinham espingardas de chumbinho e não se tornaram assassinos. Pronto. É isso. Eu ainda acho que há coisas mais legais para brincar. Mas entendo a questão de outro modo agora.

—————

Cena 7:

Passeei ontem com o Loretto. Fomos ao Museu Catavento, depois resolvemos ir à pé até a Liberdade, comer comida japonesa. Passamos pela 25 de março. O Loretto viu uma garrucha de pirata. Linda. De plástico, baratinha e linda.

Comprei para ele.

Cena 8:

No metrô:
– as mulheres olham com olhares reprovadores para mim e para o Loretto, que atira com sua garrucha em corsários invisíveis.
– os homens, todos e de qualquer idade, olham para o Loretto com um sorriso de canto de boca, quase uma vontade de pedir “me empresta essa garrucha um pouquinho”…

jack sparow

Fim.

3 Respostas to “Polêmica: armas de brinquedo, crianças, homens e mulheres”

  1. Felipe Araripe 20 de Dezembro de 2013 às 18:32 #

    Marcinha, as armas fazem parte desses rituais que os meninos herdam com os genes que vêm sendo passados ao longo de incontáveis gerações desde que deixamos as savanas africanas. É o ensaio para uma vida em que os jovens machos terão sua dominância testada a cada instante. Em termos evolucionários, os humanos saíram das cavernas outro dia. E olhe que nós homens já evoluímos muito nesse período; já não marcamos mais a dominância territorial com xixi… bem, nem todos os que eu conheço podem dizer o mesmo.

  2. Greg 23 de Janeiro de 2014 às 11:38 #

    rs Ótimo post! Quando eu era pequeno eu tinha um revolvinho de espoleta que eu adorava, lembro até do cheiro da pólvora quando estourava. Eu brincava com aquilo sem nenhum impulso realmente agressivo (pelo menos até onde me lembro), enfim, era só uma brincadeira. Brincávamos de queimada, polícia e ladrão (as meninas também brincavam!) Lembranças… Semana passada comprei num sebo um livro interessante sobre o assunto, e que há tempos eu queria ler, “Brincando de Matar Monstros”. O autor, Gerard Jones, é um roteirista de quadrinhos e games e ele explica pq acha que as crianças precisam de fantasia, videogame e violência de faz-de-conta. Tem uma resenha aqui: http://omelete.uol.com.br/games/ibrincando-de-matar-monstrosi/#.UuEaeyhqZL4

    Bj

Trackbacks/Pingbacks

  1. Os escaravelhos do diabo | Maestro Loretto - 9 de Dezembro de 2013

    […] Esse é o livro que minha mãe comprou em 1983 para o meu irmão Marcelo ler. A capa, depois, mudou (tiraram o moço com revólver…porque não era politicamente correto.. Em tempo, se tiver tempo, leia o meu post sobre…as armas e as crianças). […]

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