Quando o primogênito faz dez anos

5 Maio

2015-11 evento Casa Cor

Muito em breve, você que vai escrever aqui. Muito em breve, entrego a senha para que você faça o discurso em primeira pessoa. Mas não hoje. Porque hoje não vou falar de você, Loretto. Hoje, vou falar de mim.

Há dez anos, sou mãe do Loretto.

Uma mãe-troll, que prega peças, que desconfia, que sacaneia. Péssima! Mãe que viaja sem ele (e sem sentimento de culpa). Mãe que não sabe fazer bolo. Mas, tudo bem, Loretto gosta mesmo é de feijão. Eu sei fazer um bom feijão. (Ok…acho que não faço feijão há uns três anos… A Mirian faz. Shitake, eu faço toda semana. Mas o Loretto não gosta. Come forçado. Eu que forço. Sou dessas mães. Sabe a mãe da Coraline? Dessas.)

Eu me lembro do dia em que o Loretto disse para o Maurício que gostava tanto de mim, tanto, tanto, que sentia um fio saindo do seu coração e indo até a sua cabeça. É tanto amor, dizia ele, que até dói. Ele tinha três anos. Já faz tempo e não acho que ele ainda me ame tanto assim. Mas, volta e meia, eu olho para ele e penso: estou vendo o fio. Só que o fio sai do cérebro dele e vem no meu. Somos muito parecidos, pensamos em modo muito similar. Isso é bom. Isso é ruim. Isso é assim e não tem jeito.

Hoje, Loretto faz aniversário – 10 anos. Loretto carrega o peso de ser o primeiro filho. O cara responsável por tantas mudanças na vida de uma mulher – no caso, a minha. (Não deve ser fácil! Eu sou terceira filha e, te digo, é sussa: ninguém te enche os pacovás…). Loretto me transformou em mãe e tem que aguentar minhas expectativas e projeções. É o primogênito. Mas, sendo o primogênito, e tendo vindo ao mundo como veio (relato aqui), Loretto fez por mim o que nunca mais ninguém fará: me encheu de poder. Se não fosse ele, o que seria da Marcinha para enfrentar todo o resto? Quando o Arrigo nasceu, eu tinha as rédeas do carrinho de montanha-russa na minha mão. Fácil não foi. Mas eu tinha uma certeza: a gente não controla tudo. Ainda assim, a parte que a gente controla, a gente tem que controlar com o corpo inteiro.

Loretto me deu entendimento. Eu sei, Loretto, você não sabe disso. E deve achar que isso não faz sentido. Mas ao te observar, me vejo. E, assim, tantas passagens estranhas da minha infância compreendi só agora. Queria te falar coisas sobre a adolescência e a vida adulta. Te aconselhar, te prevenir. Mas eu sei, eu sei com todo o meu coração, que não adianta nada. Somos iguais, insubordinados, turrões, indóceis, céticos. E, afinal, será assim: vendo você, vou me descobrir. Então, vai. E me explica a vida. Toda aquela parte confusa da adolescência e da vida adulta. Me faz ver. Estou esperando.

Tem mais uma coisa, Loretto, acho lindo – me emociono – quando os pais dizem aos filhos que sempre vão apoiá-los nas suas decisões. Então, fiquei com vontade de te dizer que, sim, eu vou te apoiar nas tuas decisões. Mas, antes, vou te encher o saco, vou tentar te punir, vou tentar te convencer das minhas convicções, vou te fazer sentir um pouco de culpa. Sei lá… Sou dessas. No final, você vai entender e nós vamos rir juntos. A única coisa que eu queria te pedir é que a gente falasse sempre a verdade um para o outro. (Mas, aí, já tem um tantão de mentira porque você é o filho, eu sou a mãe – e em alguns momentos, talvez vários, a gente não fale a verdade para a mãe…e…bem, acho que as mães não falam todas as verdades para os filhos…Crescer também é isso…). Tá, ok, vamos dizer o seguinte: fale bastante a verdade para mim. E eu vou falar bastante a verdade para você. O máximo possível. O máximo.

Hoje o Loretto faz dez anos.

Hoje, a gente faz aniversário, Loretto. É um dia como outro. Mas é muito melhor.

Parabéns!

E obrigada.

Loretto e Marcinha 2006

 

 

 

 

 

 

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Rubicão ou “Ora direis ouvir estrelas, Loretto?”

5 Mar

Captura de Tela 2016-03-05 às 13.43.14Faz um ano que eu e Loretto não nos acertamos. Eu exijo demais. Ele tem vontade de fazer comigo o que já fez com tantas lagartas: arrancar minha cabeça, me dissecar. Somos muito parecidos e, ao mesmo tempo, nos descobrimos muito diferentes. Em outras palavras: ferrou!  É o Rubicão! Rubicão seria, segundo a Antroposofia, a crise dos nove anos. Aquele momento em que a criança desenvolve, efetivamente, a sua individualidade.

Rubicão, originalmente, é um rio italiano. Mas o Rubicone não é um rio qualquer. Até o ano 49 a.C, os generais romanos eram impedidos por leis do Senado de atravessá-lo com suas tropas – para evitar ameaças militares internas contra a República. Mas Júlio César desobedeceu, atravessou o rio e disse Alea jacta est (“a sorte está lançada”). A transgressão precipitou a Guerra Civil na República e conduziu ao estabelecimento do Império Romano. A expressão “atravessar o Rubicão” significa tomar uma decisão arriscada de maneira irrevogável, sem volta. E de grandes consequências.

Assim, tenho visto o Loretto às margens do rio Rubicão. Disposto a travar combates. E eu sou a velha República…

Mesmo com tudo que conhecemos desse menino chamado Loretto, eu ainda nutria o desejo de que, um dia, ele se deixaria seduzir pela vida sistemática, pelos estudos programados, pela ordem e pelo progresso. No entanto, o tempo passa e vejo que é um sonho vão. Dia desses, ele ficou – sob meu “comando” – algumas horas, estudando o tema Paisagens Rurais e Paisagens Urbanas. Leu tudo sobre atividades econômicas, definições de metrópole, questões sanitárias, populacionais, habitacionais… Ao final, ele só tinha que pontuar – dentre as diferenças vistas entre as grandes metrópoles e as pequenas cidades rurais – qual era a que ele considerava mais importante. E eis sua resposta:

_ Nas metrópoles, é muito mais difícil de ver estrelas.

O Rubicão está passando pela minha aldeia.

De certo, perderei o senso.

Prevejo inúmeras batalhas.

Prevejo um Império.

 

 

 

Loretto comenta o livro Heróis do Clima

3 Maio

Loretto ganhou um livro. E resolveu comentar em vídeo. Agora, ele promete comentar mais e mais e mais…

 

Assassin’s Creed, açúcar e a escola em que acredito

3 Maio
Assassin's Creed

Esse é o jogo Assassin’s Creed. Eu nem tentei jogar. Sou da época do joystick do Atari…

Por mim, o Loretto não ia ter videogame. Mas meu irmão deu a ele um PS3… (meu irmão também levou o Loretto para comer McDonald’s…, ou seja, temos uma relação bastante conflituosa… love you, brother…). E o Loretto entrou na febre do Assassin’s Creed, um jogo que eu nunca vou entender bem (pois sou da época do River Raid…), mas que tem, ao que parece, piratas circulando pelas ilhas do Caribe na época da colonização espanhola, roubando, lutando, afundando navios…

Hoje, no entanto, em pleno domingão, eu tenho que me render ao sucesso do mundo tecnológico. Vejo Loretto, para lá e para cá, às voltas com os hábitos das colônias caribenhas. Ele nem relou no controle do pS3, mas passou a manhã perguntando sobre a importância do açúcar naquela época. Momento mágico de explicar – a quem buscou o conhecimento de forma ativa – sobre capitanias hereditárias, governança colonial, construção de fortes, tratado de Tordesilhas. E –  glória, glória absoluta! – o Loretto leu um capítulo inteiro do seu livro de história (o livro que ele ainda nem tinha aberto até ontem), para entender mais sobre a colonização e as conquistas entre 1500 e 1600…

Loretto lendo o capítulo sobre colonização da América. Por vontade própria...

Loretto lendo o capítulo sobre colonização da América. Por vontade própria…

Descubro que, na escola (EMEF Des. Amorim Lima), a tutora percebeu o interesse dos meninos pelo jogo e deu a alguns deles um roteiro de pesquisa baseado na trama do Assassin’s Creed. Agora, cabe ao Loretto e aos dois colegas que trabalham com ele nessa pesquisa, desvendar o que estava por trás de todas aquelas trocas comerciais que se desenvolvem no game. Lembrei-me de como foi que aprendi sobre as capitanias, lembrei-me de como decorei data e nomes. Lembrei-me de como foi inútil todos esse meu conhecimento naquela época. Loretto, ao contrário, tem aprendido as coisas de um jeito que não vai mais esquecer. De um jeito muito mais lento também, tenho que admitir. Mas é inegável que, para um menino de quase quase nove anos, essa forma de aprender é muito mais legal.

Esse foi o roteiro que a tutora do Loretto inventou. Conhecimento a partir do interesse dos meninos.

Esse foi o roteiro que a tutora do Loretto inventou. Conhecimento a partir do interesse dos meninos.

Minha aula sobre época da colonização. Minhas caravelas, minhas capitanias hereditárias...

Minha aula sobre época da colonização. Minhas caravelas, minhas capitanias hereditárias…

Ah…sobre o Mc Donald’s…ufa, nessa meu irmão perdeu. Loretto achou tudo sem gosto na lanchonete do SuperSizeMe.

Loretto não assiste à novela Tic Tac…

7 Dez
Tá aí uma coisa que Loretto não assiste...

Tá aí uma coisa que Loretto não assiste…

Hoje teve festa de aniversário de um amigo bem querido do Loretto. Foi muito legal – o tema era Minecraft. Mas o que estava realmente lotando as memórias dos Iphones eram três atores-mirim de novela, primos do aniversariante. Mães pescavam o trio para vários cliques, entre uma brincadeira e outra. Na saída da festa, perguntei para o Loretto se ele já tinha visto aquelas crianças na TV. Ele disse: “Não… parece que eles são de uma novela que chama Tic Tac…”.

Eram da Chiquititas. Segundo o Google, interpretam “Thiago, Tati e Ana”. Isso me fez lembrar do dia em que o Loretto perguntou o que era o Caldeirão do Hulk.

Pensei: “Talvez devêssemos ver um pouco de TV aberta”.

O fato é que nunca proibimos TV aberta. Mas Loretto e Arrigo não se interessam pelo que a TV aberta traz. Loretto, por exemplo, passa horas vendo Animal Planet e documentários sobre II Guerra Mundial (e, nesta semana, me disse que assistiu ao filme “Passageiro 57” inteirinho… Descobri que é um filme de 1992 sobre um homem que combate terroristas…Sei lá em que canal foi isso…).

Daí, depois da festa, voltando à pé pela nossa rua, Loretto olha uma casa e pergunta: “O que será que funciona ali?”. Tinha uma placa com um poliedro 3D em que se lia Vector Equilibrium. Atravessamos a rua para olhar. Duas pessoas nos apresentaram o espaço, onde parece acontecer inúmeras atividades holísticas (entre elas, sessões em Flutuarium – um tanque fechado com água salgada que simula a sensação que um bebê tem no útero…). Loretto reconheceu a ‘rede de apanhar sonhos’ pendurada num canto (foto abaixo), brincou com o diapasão, curtiu o torus, o vector equilibrium em si e outros objetos que pareciam saídos de uma feira de ciências… Quando nos despedimos, ele soltou um: “Que lugar legal, mãe…vamos voltar aí qualquer dia…”.

Pensei: “Talvez seja tarde para começar a ver TV aberta…”.

O mundo é um grande roteiro de novela Tic Tac. Mas o Loretto, definitivamente, nasceu sintonizado em outro canal.

O Loretto adora essa rede de apanhar sonhos

O Loretto adora essa rede de apanhar sonhos

 

Esse é o Vector Equilibrium...

Esse é o Vector Equilibrium…

O Torus é uma estrutura metálica que abre e fecha.

O Torus é uma estrutura metálica que abre e fecha.

Loretto faz uma macumba e tem uma grande revelação

2 Dez
Chegar, à noite, e ser recepcionado com essa bandeja... Isso é o dia-a-dia aqui em casa.

Chegar, à noite, e ser recepcionado com essa bandeja… Isso é o convencional aqui em casa.

Loretto fez uma instalação e performance com um crânio de carneiro. Chegamos à noite e lá estava Loretto no nosso quarto, com um crânio sobre uma bandeja redonda. Sobre o crânio, uma vela. E ao redor, uns dentes arrancados de um maxilar de porco do mato e umas pedras. O quarto estava com a luz apagada. A vela estava acesa. E o Loretto estava segurando uma foice com cara de possuído. Aqui em casa é assim! Vivemos em perfeita harmonia, em um ambiente saudável e cheio de boas surpresas…

Pais normais teriam levado o filho ao exorcista.

Depois de muita conversa sobre o mundo da evocação dos espíritos e o mundo das macumbas, depois de muita conversa sobre a energia das pedras e sobre o cheiro de vela, Loretto contou qual foi sua grande revelação daquele dia. Loretto mostrou como o mundo do esoterismo é muito mais complexo do que imaginam os mortais sem conhecimento odontológico-veterinário. Palavras dele: “Manooo, arrancar dente permanente dá muito trabalho! Demorei duas horas com o alicate do papai para conseguir arrancar quatro dentes da mandíbula do porco do mato…!”

Vamos pensar pelo lado positivo: quando um hiperativo fica duas horas parado numa tarefa, estamos fazendo progresso. Eu sei…ele bem que poderia estar estudando, ou decorando a tabuada, ou ainda…treinando conta de dividir com dois números na chave…mas, enfim…pelo andar da carruagem, se um dia eu chegar em casa e ele estiver estudando desse jeito, aí, sim, é o caso de exorcizar…

Parece uma macumba, mas, na verdade, é...apenas uma experiência, com vela...

Parece uma macumba, mas, na verdade, é…apenas uma experiência, com vela…

Dentes de porco do mato. Esses daí foram arrancados do maxiliar inferior com um alicate. Segundo o Loretto, deu trabalho!

Dentes de porco do mato. Esses daí foram arrancados de um maxilar inferior com alicate. Segundo o Loretto, deu trabalho!

Lego para Loretto, quebra-cabeça para Arrigo, hiperatividade para todos

31 Ago

 

Templo de Lego. O Loretto ficou horas até achar uma arquitetura que fosse condizente com a história que inventou.

Templo de Lego. O Loretto ficou horas até achar uma arquitetura que fosse condizente com a história que inventou.

O Loretto é como todo menino. Corre, pula, grita, reclama, perde lápis, amassa caderno. E, como quase todo menino, já foi chamado de hiperativo algumas dezenas de vezes. Remédio? Sim, já sugeriram. Por sorte, ele tem uma pediatra tão maluca quanto nós – e ela acredita que ele é, simplesmente, criança – e como tal pode e deve brincar, viver. E ele vive como uma criança de antigamente – só pensa em subir em árvore, não tem video-game (recentemente, ganhou um IPAD usado e entrou na febre do Minecraft…durou menos de um mês, até porque o IPAD quebrou. Agora, ele “joga” Minecraft lendo um livro da Abril sobre o assunto), está sempre com as roupas sujas e rasgadas. E não para. Nunca. Almoça e faz lição de pé…

No começo desse semestre, ele começou a inventar e desenhar uns mapas para expedições misteriosas. Daí tive uma ideia genial de comprar um quebra-cabeça com mapa. Claro! Como nunca tinha pensado nisso? Para montar quebra-cabeça é preciso ficar parado! Comprei um de 100 peças. Mapa do Brasil, bonitinho, com parte da América do Sul. Mas…que decepção! Ele ficou quatro dias enrolando, jogando peças para baixo da mesa. E não conseguiu montar. Certa manhã, o Arrigo pegou o quebra-cabeça e…montou em meia hora. O Arrigo tem quase quatro anos. O Loretto tem oito…

Confesso que pensei: “Talvez seja mesmo o caso de dar um remedinho para o Loretto, né?…”. E, enquanto refletia, o Arrigo começou a pedir mais e mais e mais quebra-cabeças para montar. 100 peças, 150 peças, 200 peças, 250 peças… Estamos agora com um aqui de 500 peças…cheio de peixes…uma desgraça para montar…mas ele não desiste. Arrigo é assim: metódico, determinado. Mas, ei, espera! Arrigo também já foi “rotulado” de hiperativo. Tem gente até que acha que ele é pior do que o Loretto! Ele também corre o dia todo, também pula, também grita, também esperneia, também não para.

Mas Arrigo fica parado quando está montando quebra-cabeça.

Assim como o Loretto fica parado para desenhar, pintar e…montar Lego!

Ontem, em um churrasco com amigos queridos, ele ficou cerca de duas horas montando Lego. Enquanto as outras crianças se revezavam em várias brincadeiras, ele montou um templo e me contou a história do templo. E, então, eu entendi: não há nada para se “inventar” num quebra-cabeça, por isso Loretto não gosta de montá-los. No carro, ele confirmou o que eu imaginei. Ele me disse que acha estranho querer montar um desenho que você já sabe qual vai ser… O desenho do quebra-cabeça já está lá, já existe. Num Lego, quem monta inventa.

E, assim, estou cá a pensar em tudo que já ouvi… A mesma galera que me sugere remédios e escolas tradicionais para o Loretto tem o seguinte argumento: “Ele vai sofrer quando tiver que fazer prova…”. E eu te digo: talvez EU sofra. Ele nunca. Loretto faz Kumon e sabe que nunca vai ganhar medalha de matemática. E não está nem aí. Continua indo para lá, felizão: o negócio dele é chegar, fazer a lição rapidinho e ficar contando histórias para as monitoras. “Neste final de semana, fui para a África do Sul”, inventa. Ele inventa coisas novas o tempo todo. Eu não acho que ele vai sofrer. Mas eu acho que ele vai incomodar muita gente. Porque a sociedade fica possessa com crianças que são crianças – daí o sucesso dos remédios – e com os adultos que são adultos – daí o sucesso das plásticas e brinquedos caros, como os carros de marca. Abaixo, para você se inspirar, a música preferida do Loretto. Sim, para piorar o cara é fascinado pelo Raul Seixas. Estou ferrada! Vou ter que tomar muitos antidepressivos…

 

Por dentro do Templo de Lego criado por Loretto

Por dentro do Templo de Lego criado por Loretto

Quebra-cabeça da epifania. Loretto não conseguiu montar. Arrigo montou em meia hora...

Quebra-cabeça da epifania. Loretto não conseguiu montar. Arrigo montou em meia hora…